Quantos filhos você tem ?

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cronica

Quantos filhos você tem ?

Não faz muito tempo eu elegi um amigo para chorar minhas pitangas em seu ombro.

É um homem inteligente, aquele tipo de pessoa que dá gosto de conversar, jamais terminamos uma conversa sem que eu tenha aprendido alguma coisa, nem que seja uma receita de peixe, ele adora cozinhar.

Nos conhecemos há mais de trinta anos. Acompanhei sua fase de namorador, fui testemunha do seu casamento e estive ao seu lado quando sua união acabou. Ele é aquele tipo de amigo que eu tenho a liberdade de falar sobre tudo sem constrangimento. As vezes eu esqueço que é homem, comento coisas, pergunto outras que só sendo uma mulher para saber como é que é. Nessas horas ele me olha fixamente, arregala os olhos e eu me toco que seu cromossoma é XY, ou seja, dificilmente vai me entender.

É clichê eu sei, porém o que seria de nós se não tivéssemos bons e verdadeiros amigos para nos acolher, aconselhar, alegrar, falar o que faz bem aos nossos ouvidos, tanto quanto falar o que de forma alguma queremos escutar. Amigo verdadeiro, de fé, raça e coração nos fala o que ninguém mais ousa mencionar.

Neste dia, o foco da prosa foi relacionamentos, as esperanças que criamos em relação aos mesmos, os conflitos existentes e as frustrações decorrentes da não correspondência das nossas expectativas. Como dizem lá nas Minas Gerais: ohhhh trem difícil.

Relacionar-se exige boa vontade e muitas concessões. Relacionar-se saudavelmente, atinge o patamar das artes e relacionar-se sem criar expectativas eu penso que não é para gente desse mundo. Ahhh não é não.

Por mais que saibamos que não se deve esperar nada do outro, dificilmente nos relacionamos sem criar alguma esperança, expectativa, por menor que seja, algum tipo de retorno. Esse retorno não esta fundamentado em lucros incessantes, vantagens políticas ou influências sociais. Esse retorno poderá ser desejado por uma demonstração de afeto, gratidão, respeito, reconhecimento, companheirismo, amizade, fidelidade. São muitas as roupagens.

Um exemplo bem clássico é o sentimento da maioria dos pais. Educamos nossos filhos com amor e zelo, passamos a eles os princípios da ética, da moral, investimos na sua formação acadêmica, enfim… Qual a expectativa que teremos? No “mínimo” que sejam pessoas de bem. Este desejo, é uma forma de retorno. Não descarto a possibilidade de ser pequenez da minha alma esperar alguma manifestação vinda da outra parte, mas espero do fundo do meu coração que meus filhos contribuam com o mundo sendo pessoas de bem.

As vezes desejamos que o outro tenha compaixão para com as nossas pequenas faltas, que não nos atire pedras diante de um deslize qualquer que venhamos a cometer. Dói tanto uma atitude impiedosa vinda de alguém que amamos.

Então… eu e meu amigo sabido estávamos já há um bom tempo compartilhando nossos sentimentos quando ele me perguntou:

Quantos filhos você tem?

Aí foi minha vez de olhar firme para ele, arregalar os olhos e fazer cara de samambaia.

Que pergunta! Você foi ao batizado dos dois lembra-se?

Sim, e se eu te disser que você tem quatro filhos?

Me assombrei e momentaneamente cheguei a cogitar que meu amigo sabido havia perdido não somente a sabedoria, mas o juízo e a razão. Como sei que ninguém se dilui assim tão rapidamente, indaguei onde ele queria chegar com aquela fala.

Começou ele: quando digo que você tem quatro filhos, é pelo fato de você carregar dentro de você dois filhos idealizados e fora de você existem dois filhos reais.

A princípio achei estranho essa coisa, mas aos poucos, conforme ele foi pontuando eu acabei por concordar. Trocando em miúdos; idealizamos alguém (não importa o tipo da relação) e quando nos deparamos que este alguém não é bem assim como o idealizamos, é muito comum responsabilizar o outro pela decepção e naturalmente falamos: “você me decepcionou, não é como eu pensava” !

Mas cá pra nós, será mesmo que o outro é responsável?

Se ele não forjou ser outra pessoa, foi eu quem o idealizei de acordo com minha vontade, sendo assim, a responsabilidade pelo meu desencantamento cabe somente a mim.

Um abraço

Isolda

 

 

 

 

 

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